Livro: Diccionario Bibliographico Brazileiro
Autor: Augusto Victorino Alves Sacramento Blake
O Diccionario Bibliographico Brazileiro, de Augusto Victorino Alves Sacramento Blake, em seu terceiro volume, publicado em 1895, representa uma das mais ambiciosas iniciativas de sistematização da memória intelectual brasileira no século XIX. Editado pela Imprensa Nacional, no Rio de Janeiro, esse volume integra um projeto mais amplo de levantamento bio-bibliográfico destinado a registrar a trajetória de autores brasileiros ou radicados no país, contemplando diferentes áreas do conhecimento, como literatura, direito, medicina, engenharia, teologia, administração pública e jornalismo.
Na introdução do terceiro volume, o autor expõe, com franqueza, as dificuldades enfrentadas na realização da obra. Sacramento Blake lamenta a limitada colaboração recebida de membros das faculdades de direito e de medicina, bem como de homens de letras, apesar do envio de numerosas circulares solicitando informações biográficas e bibliográficas de caráter autêntico. Ressalta, ainda, as críticas dirigidas aos volumes anteriores, especialmente no que se refere a imperfeições tipográficas ou à omissão de determinadas obras. Em tom simultaneamente defensivo e resoluto, afirma ter prosseguido na empreitada movido por firme determinação, mesmo diante da indiferença de parte do meio intelectual.
O conteúdo do dicionário organiza-se alfabeticamente, apresentando verbetes que reúnem dados biográficos essenciais, filiação, local e data de nascimento e falecimento, formação acadêmica, cargos exercidos e honrarias recebidas, seguidos da enumeração detalhada das obras publicadas, manuscritos, discursos, relatórios administrativos e contribuições à imprensa periódica. Em muitos casos, o autor acrescenta observações críticas, informações sobre edições sucessivas e referências a polêmicas envolvendo os biografados, o que amplia o valor histórico e documental da obra.
A diversidade dos perfis incluídos revela a complexidade do campo intelectual do Brasil imperial. Encontram-se sacerdotes envolvidos na chamada “questão religiosa”, engenheiros participantes de projetos de infraestrutura, médicos vinculados às faculdades do Império, tradutores de obras europeias, jornalistas e políticos atuantes nas assembleias provinciais e na administração central. O dicionário, assim, não se restringe ao universo estritamente literário, abrangendo a produção intelectual em sentido amplo.
Ao reunir informações dispersas e, por vezes, de difícil localização, o Diccionario Bibliographico Brazileiro consolidou-se como instrumento indispensável para estudos sobre a formação das elites letradas, a circulação de ideias e a constituição do espaço público no Brasil oitocentista, preservando a memória de autores que poderiam ter sido esquecidos pela historiografia posterior.