Livro: As narrativas e memórias do cuidado: as quebradeiras de coco babaçu e as mães Palmeiras
Autor: (Org. Adriana Ressiore C.; )
O livro apresenta uma reflexão aprofundada sobre as narrativas, experiências de vida e práticas de cuidado desenvolvidas pelas quebradeiras de coco babaçu do Piauí e do Maranhão, articuladas ao Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB). A obra resulta de pesquisa qualitativa baseada em entrevistas, observação participante e convivência direta com as comunidades, buscando compreender como as relações entre cuidado, natureza, trabalho e resistência estruturam a vida dessas mulheres. A autora demonstra que o cuidado não pode ser reduzido apenas a uma dimensão afetiva ou doméstica, mas deve ser compreendido também como prática política e instrumento de resistência social. O cuidado com as palmeiras de babaçu, com a comunidade e com as famílias aparece diretamente relacionado às lutas por território, sobrevivência, autonomia econômica e reconhecimento social. As narrativas evidenciam que o conflito faz parte da experiência cotidiana das quebradeiras, sobretudo diante das disputas por terra, das ameaças de fazendeiros, da exploração econômica e das restrições históricas ao acesso aos babaçuais. Ao longo da obra, diferentes depoimentos revelam trajetórias marcadas pelo trabalho desde a infância, pela pobreza rural, pela dificuldade de acesso à educação formal e pela inserção precoce nas atividades de quebra do coco. Apesar das condições adversas, as quebradeiras constroem formas de organização coletiva, solidariedade e autonomia, transformando o trabalho com o babaçu em elemento fundamental da reprodução econômica e cultural de suas comunidades. O livro enfatiza ainda o papel do MIQCB como importante movimento socioambiental e político, responsável pela valorização das quebradeiras enquanto sujeitas históricas e produtoras de conhecimento. A organização coletiva contribuiu para fortalecer o reconhecimento público dessas mulheres, ampliar suas reivindicações por direitos e consolidar formas de resistência frente às desigualdades sociais e fundiárias. Outro aspecto central da obra é a relação simbólica estabelecida entre as quebradeiras e a “mãe palmeira”. O babaçu é apresentado não apenas como fonte de renda, mas como elemento constitutivo da identidade, da memória e da existência coletiva dessas populações tradicionais. A autora destaca que os saberes construídos pelas quebradeiras representam importantes contribuições para o debate contemporâneo sobre sustentabilidade, justiça ambiental e convivência equilibrada com a natureza. Por fim, a obra propõe uma reflexão crítica sobre desenvolvimento, políticas públicas e modos de vida tradicionais, evidenciando que as experiências das quebradeiras de coco babaçu oferecem importantes ensinamentos sobre cuidado, resistência e preservação ambiental no Brasil contemporâneo.