A Questão Warao no contexto diaspórico brasileiro

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Livro: A Questão Warao no contexto diaspórico brasileiro

Autor: (Orgs. Raoni Borges Barbosa; Eliane Anselmo da Silva; Carmen Lúcia Silva Lima )

A obra examina a presença do povo indígena Warao no Brasil a partir dos deslocamentos iniciados, sobretudo, em 2014, em meio ao agravamento da crise econômica, política e social venezuelana. Com base em pesquisas etnográficas, trabalho de campo e revisão bibliográfica, os autores interpretam essa mobilidade transnacional como um processo diaspórico complexo, que não se limita à mudança geográfica. A diáspora envolve memórias, vínculos familiares, reorganização comunitária, construção de novas territorialidades e contínua afirmação identitária. O livro apresenta aspectos históricos e culturais dos Warao, originários da região do delta do rio Orinoco, ressaltando a diversidade interna do grupo. Analisa a centralidade do parentesco, das alianças matrimoniais, da matrilocalidade, das lideranças denominadas aidamos e da atuação espiritual e terapêutica dos xamãs. Essas formas de organização são reelaboradas durante os deslocamentos e na constituição dos abrigos, geralmente estruturados por redes familiares, relações de reciprocidade e decisões coletivas. Ao acompanhar rotas que atravessam cidades e estados brasileiros, a obra evidencia os obstáculos enfrentados pelos Warao no acesso à moradia, saúde, educação, trabalho, documentação e assistência social. Também demonstra como categorias institucionais, indígenas, migrantes, refugiados, venezuelanos ou estrangeiros, são insuficientes para compreender suas experiências. Muitas intervenções públicas reproduzem tutela, vigilância, estigmatização e violência simbólica, pois interpretam costumes Warao segundo expectativas externas e desconsideram seus próprios conhecimentos, escolhas e formas de autoridade. Os autores discutem ainda a coleta de dinheiro nas ruas, frequentemente classificada como mendicância, mostrando que ela pode constituir estratégia econômica familiar adaptada ao contexto urbano, com participação relevante das mulheres. Abordam também tensões relacionadas às práticas matrimoniais, à escolarização, às políticas sanitárias e às diferentes concepções de saúde, doença e cuidado. Por fim, o livro sustenta que os Warao não são sujeitos passivos da crise ou da assistência estatal. Eles mobilizam saberes, memórias, redes de parentesco e práticas culturais para negociar sua permanência, reconstruir espaços de vida e preservar fronteiras étnicas. A análise propõe uma compreensão crítica das migrações indígenas transnacionais e defende políticas públicas interculturais, capazes de reconhecer autonomia, diversidade e protagonismo Warao, em lugar de respostas homogeneizadoras, paternalistas e incompatíveis com a complexidade de suas trajetórias contemporâneas coletivas.

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